Em palestra, ministra Cármen Lúcia classifica feminicídios no Brasil como “barbárie”
Declaração foi dada na manhã desta quarta (11), em evento realizado no Tribunal de Contas da União (TCU)

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia, classificou a violência contra a mulher como “barbárie” e afirmou que a “matança de mulheres” precisa ser interrompida imediatamente. A declaração foi dada na manhã desta quarta (11), em palestra no Tribunal de Contas da União (TCU), durante o evento “Todas e todos contra o feminicídio”.
A ministra participou do evento, no qual proferiu a palestra “Liberdade da mulher de ir e vir — um direito ainda em construção”. Ela iniciou com um forte apelo: “Resolveram nos matar, resolvemos viver. Temos uma equação para pacificar essa relação”.
“O local tradicional da mulher era no borralho. E que ficasse quieta lá. Na sala, os grandes temas eram discutidos pelos homens. Isso poderia ser algo de séculos atrás. Mentira. Os clubes de charuto continuam ainda hoje. Não queremos ser guerreiras o tempo todo. Queremos ser namoradas, queremos passear. O destino do ser humano é a felicidade”, disse.
Cármen Lúcia destacou que quanto mais a mulher se apresenta no espaço público, mais se tem reação de barbárie, de não civilização. “Isso é moldado de maneira planejada e tão sutil. Isso é um projeto de sociedade. Precisamos nos transformar em uma sociedade de iguais”, salientou.
Ao longo de sua fala, a ministra condenou o estupro coletivo de uma menina menor de idade em Copacabana, no Rio de Janeiro. Ressaltou que o episódio mostra “o horror alucinante e estarrecedor” da coisificação da mulher.

Uma morte a cada seis horas
O Brasil registrou um recorde histórico de feminicídios em 2025, com 1.568 vítimas, um aumento de 4,7% em relação a 2024, o que representa uma média de mais de quatro mulheres assassinadas por dia. Dados do Retrato dos Feminicídios no Brasil indicam que os crimes aumentaram 34% em algumas análises, com alta em pequenas cidades e aumento do uso de armas de fogo.
"Onde uma mulher foi violentada, foi morta, todas nós, mulheres, estamos sendo, em parte, violentadas e assassinadas", acrescentou a ministra. Na sequência, reafirmou: “Somos uma sociedade machista, racista, misógina e preconceituosa. Somos uma sociedade que precisa ser transformada. Por isso, o movimento é cultural”, concluiu.
Senso de responsabilidade
Ao abrir o evento, o presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, fez reverência à ministra Cármen Lúcia e disse que o “espírito aguerrido, destemido e resiliente” da magistrada é importante no país na luta contra o feminicídio, pois é uma voz ativa nesse movimento. “Ela é o nosso símbolo. Costumamos eternizar e homenagear pessoas que já partiram para a eternidade. Temos que aproveitar em vida as causas eternas que fazem da mulher brasileira uma eternidade”, destacou.
Vital do Rêgo defendeu que o combate ao feminicídio exige respostas eficazes do Estado e senso de responsabilidade da sociedade. “Este tema precisa estar no centro das nossas instituições. O Brasil avançou na legislação, mas os números mostram que os casos continuam aumentando. Quando uma mulher perde a vida por violência de gênero, precisamos reconhecer que o Estado falhou na proteção”, ponderou.
“O enfrentamento é uma responsabilidade de toda a sociedade, mas em especial dos homens. Nasce de padrões culturais que os homens precisam reconhecer e transformar. A mudança cultural para enfrentar esse problema depende de nós, homens”, acrescentou.
No fim do pronunciamento, Vital do Rêgo anunciou que o TCU aprimorará os processos de fiscalização e controle de eficiência de gastos públicos para transpor a violência de gênero.
Respostas transversais
A ministra substituta das Mulheres, Eutália Barbosa, afirmou que a violência contra a mulher é um problema complexo e que exige “respostas transversais” no enfrentamento. “Esse é um problema global, e o Brasil tem envergadura e experiências importantes para estar dialogando sobre o assunto”, pontuou.
A ministra substituta ressaltou que os números de violência contra a mulher "envergonham" o país. “O feminicídio é a forma mais grave de violência contra a mulher. O feminicídio é o fim da linha. Ele é o resultado de um histórico de violência”, concluiu.
O evento também contou com a participação da deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), representando o Congresso Nacional. Ela defendeu que a forte onda de violência contra a mulher “mata o encantamento de viver”.
“É preciso falar de misoginia, de como se odeiam mulheres. O Congresso demorou 109 anos para ter uma deputada. Na Comissão da Mulher, de 125 projetos, 65% tratam de violência. Não estamos discutindo projetos para viver, mas projetos para não morrer”, enfatizou Célia Xakriabá.
Já a procuradora-geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU), Cristina Machado da Costa e Silva, afirmou que os números de feminicídios não são apenas estatísticas, mas, sim, vidas interrompidas e famílias devastadas. Destacou que o sistema tem graves falhas que precisam ser urgentemente corrigidas. “Mesmo em 2026, convivemos com uma realidade com múltiplas formas de violência contra as mulheres. Ser mulher no Brasil ainda significa viver em condições diferentes daquelas impostas aos homens”, frisou.
Serviço — onde pedir ajuda
» Ligue 190: Polícia Militar. Serviço disponível 24h por dia, todos os dias. Ligação gratuita.
» Ligue 197: Polícia Civil. É o número nacional do Disque-Denúncia em grande parte do Brasil, funcionando para denúncias. Ligação gratuita.
» Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, canal da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. A denúncia pode ser feita de forma anônima, 24h por dia, todos os dias. Ligação gratuita.
OA/EM/DB

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